"Foi com as botas calçadas
que tomei as decisões mais
importantes da minha vida"
- LN

"Foi com as botas calçadas
que tomei as decisões mais
importantes da minha vida"
- LN

Há caminhos que fazemos uma vez e guardamos para sempre na memória.

E há caminhos aos quais voltamos porque fazem parte da nossa vida.

Nos últimos seis meses percorri o Caminho Primitivo três vezes. Não para colecionar quilómetros ou carimbos na credencial, mas porque sou guia especializado em Caminhos de Santiago. A minha profissão exige que conheça o Caminho em diferentes épocas do ano, acompanhe a evolução das condições do terreno e esteja preparado para proporcionar aos peregrinos a melhor experiência possível.

Em dezembro encontrei o rigor do inverno nas montanhas das Astúrias. Em março caminhei com a Cordilheira Cantábrica coberta de neve, num cenário que fazia lembrar uma paisagem alpina. Já em junho, a montanha mostrou-me outra das suas características mais marcantes: uma amplitude térmica de cerca de 30 °C entre o início e o final do dia. É esta constante mudança que torna o Caminho Primitivo tão fascinante quanto exigente.

Foi precisamente aí que, mais uma vez, confirmei uma das maiores particularidades deste percurso: a montanha nunca é igual. Muda a cada estação, muda ao longo do dia e obriga-nos a adaptar constantemente o ritmo, o equipamento e até a forma de caminhar.

É por isso que continuo a regressar.

Cada passagem ensina-me algo novo e reforça uma convicção que costumo partilhar com os peregrinos que acompanho:

“Fazemos todos os outros Caminhos para treinar para o Primitivo.”

Quem o percorre percebe rapidamente o que quero dizer.

São cerca de 330 quilómetros de natureza, montanha, história e autenticidade. Um Caminho que exige preparação, respeito e humildade, mas que oferece algumas das paisagens mais extraordinárias do Caminho de Santiago.

Quem escreve este artigo

O meu nome é Luís Negrita, fundador da Passa Montanhas, guia especializado em Caminhos de Santiago e Caminhos de Fátima.

Há mais de 15 anos que percorro montanhas e grandes rotas pedestres. Ao longo desse percurso caminhei os diferentes Caminhos de Santiago mais de uma centena de vezes, acompanhando peregrinos de várias nacionalidades e níveis de experiência.

Conheço o Caminho Primitivo, o Caminho Francês, o Caminho Português, o Caminho da Costa, o Caminho de Finisterra e outras rotas porque as vivo regularmente, acompanhando quem decide partir nesta aventura.

Tudo o que vais ler neste artigo resulta da experiência acumulada no terreno. Não pretende ser um guia exaustivo nem substituir a preparação individual de cada peregrino. Pretende, acima de tudo, ajudar-te a compreender porque razão o Caminho Primitivo ocupa um lugar tão especial entre todos os Caminhos de Santiago.

O primeiro Caminho de Santiago

O Caminho Primitivo é considerado o primeiro Caminho de Santiago da história.

Foi por este percurso que o rei Afonso II viajou desde Oviedo até Santiago de Compostela, dando origem à primeira peregrinação jacobeia.

Hoje continua a ser visto por muitos como o Caminho mais autêntico.

São aproximadamente 330 quilómetros que atravessam duas regiões extraordinárias: as Astúrias e a Galiza.

Mas não são os quilómetros que o tornam especial.

É a montanha.

É o silêncio.

É a natureza praticamente intacta.

É a sensação de estarmos, muitas vezes, completamente entregues ao Caminho.

Oviedo merece ser descoberta

Muitos peregrinos chegam a Oviedo na véspera de começar a caminhar.

Na minha opinião, é um erro.

Oviedo merece um dia inteiro.

É uma cidade elegante, rica em património, cultura e história. Antes de começares a caminhar, vale a pena perderes algumas horas nas suas ruas e compreenderes porque é daqui que tudo começou.

Já na saída da cidade faço sempre uma pequena paragem na Basílica de San Juan el Real.

Os seus vitrais são absolutamente magníficos e são um belo prenúncio da beleza que nos espera nos dias seguintes.

Nas Astúrias, a montanha e a vida rural caminham lado a lado. São estes momentos simples que tornam o Caminho Primitivo inesquecível.

As Astúrias são a alma do Caminho Primitivo

Se tivesse de escolher apenas uma palavra para definir as Astúrias seria “grandiosidade”.

Durante vários dias caminhamos sempre com a Cordilheira Cantábrica como pano de fundo.

Em dezembro encontrei uma montanha dura, fria e silenciosa.

Em março caminhei rodeado de neve.

Em junho encontrei uma natureza exuberante, onde num único dia a diferença entre a temperatura da manhã e da tarde chegou aos 30 °C.

É esta capacidade de mudar constantemente que torna o Caminho Primitivo tão especial.

Nunca caminhamos exatamente pelo mesmo Caminho.

O verdadeiro desafio começa cedo

Depois de sair de Oviedo percebemos rapidamente porque este é considerado um dos Caminhos mais exigentes de Santiago.

Durante praticamente nove dias alternamos entre longas subidas e descidas.

Não existem muitos momentos planos.

O Caminho obriga-nos a encontrar o nosso ritmo.

A perceber que não vale a pena competir com ninguém.

Vale mais levantar a cabeça, respirar fundo e apreciar a paisagem.

Logo após Salas aconselho sempre um pequeno desvio até à Cascata de Nonaya.

São apenas algumas centenas de metros que compensam plenamente.

Hospitales ou Pola de Allande?

É provavelmente a pergunta que mais vezes me fazem.

Depois de Borres o Caminho divide-se.

Existe a famosa Rota dos Hospitales.

E existe a variante por Pola de Allande.

Como guia profissional opto quase sempre por Pola de Allande.

Não porque a Rota dos Hospitales não seja extraordinária. É.

Mas porque a segurança dos peregrinos está sempre em primeiro lugar.

A travessia dos Hospitales percorre cerca de doze quilómetros de alta montanha sem qualquer acesso para veículos. Em caso de necessidade, a assistência pode tornar-se bastante complicada.

Por outro lado, a variante por Pola de Allande oferece igualmente paisagens magníficas, atravessando um vale encaixado num bosque de enorme beleza até ao Alto do Palo.

E há ainda outra excelente razão para passar por lá.

O restaurante Allandesa.

Porque o Caminho também se vive à mesa.

Importa ainda desfazer um mito.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a variante por Pola de Allande é mais longa e fisicamente mais exigente do que a Rota dos Hospitales.

Se optares pelos Hospitales, verifica sempre as condições meteorológicas e de segurança antes de iniciar essa etapa.

Na montanha, o tempo pode mudar muito rapidamente.

Da montanha à Galiza

Depois do Alto do Palo seguimos para La Mesa e Grandas de Salime, numa das etapas mais bonitas de todo o Caminho.

Também uma das mais exigentes para os joelhos.

Em Grandas de Salime gosto sempre de parar no Ultramarinos, um espaço muito original que merece uma visita.

Pouco depois chegamos a A Fonsagrada.

É aqui que deixamos as Astúrias e entramos na Galiza.

Mais à frente surge Lugo.

Uma cidade com mais de dois mil anos de história que merece, sempre que possível, um dia de descanso para descobrir as suas muralhas romanas, o centro histórico e recuperar energias antes da reta final.

Quando o Caminho muda

Em Melide o Caminho Primitivo encontra o Caminho Francês.

A partir desse momento tudo muda.

O silêncio que nos acompanhou durante tantos dias dá lugar a um número muito maior de peregrinos.

Continua a ser bonito.

Continua a ser Santiago.

Mas, para mim, perde um pouco daquela autenticidade que faz do Primitivo um Caminho verdadeiramente único.

O Primeiro marco da Galiza

Antes de partires

O Caminho Primitivo exige respeito.

Mais do que força, exige preparação.

Uma boa condição física, equipamento adequado e uma mochila equilibrada fazem toda a diferença.

Ao longo dos anos vi muitos peregrinos chegarem bem preparados.

Também vi outros perceberem demasiado tarde que subestimaram a montanha.

O Caminho recompensa quem o respeita.

Muito mais do que um Caminho

Depois de o percorrer mais uma vez este ano continuo a acreditar exatamente no mesmo.

O Caminho Primitivo não é apenas o mais exigente.

É, para mim, o mais completo.

Ensina-nos humildade.

Ensina-nos a respeitar o nosso ritmo.

E lembra-nos que o verdadeiro objetivo nunca foi apenas chegar a Santiago.

É tudo aquilo que aprendemos até lá chegar.

Queres viver o Caminho Primitivo da melhor forma?

Ao longo deste artigo partilhei apenas uma pequena parte daquilo que aprendi depois de percorrer o Caminho Primitivo inúmeras vezes.

Mas há decisões que fazem toda a diferença e que só a experiência no terreno permite compreender.

Escolher a melhor variante em função das condições meteorológicas, adaptar o equipamento à época do ano, planear corretamente as etapas ou evitar erros que podem comprometer toda a experiência são conhecimentos que resultam de muitos quilómetros caminhados e de muitos peregrinos acompanhados.

Se procuras uma experiência totalmente personalizada, os Caminhos Privados Passa Montanhas permitem-te viver o Caminho com acompanhamento profissional, segurança e um planeamento adaptado ao teu ritmo e aos teus objetivos.

Se preferes fazer o Caminho de forma autónoma, mas queres partir com confiança, a Mentoria Passa Montanhas ajuda-te a preparar cada detalhe antes do primeiro passo.

Porque um Caminho bem preparado começa muito antes de se colocar a mochila às costas.

Um conselho de guia

Depois de acompanhar centenas de peregrinos, há uma coisa que aprendi: no Caminho Primitivo não chega mais longe quem caminha mais depressa. Chega mais longe quem sabe respeitar o seu próprio ritmo.

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