"Foi com as botas calçadas
que tomei as decisões mais
importantes da minha vida"
- LN

"Foi com as botas calçadas
que tomei as decisões mais
importantes da minha vida"
- LN

Por cima da minha secretária tenho um quadro do Caminho de Santiago. É mais do que uma imagem. É uma memória viva, uma âncora silenciosa que me transporta para tudo o que já vivi ao longo dos muitos quilómetros percorridos. Basta olhar para ele e volto a ouvir os passos, o vento, o som da natureza e aquele silêncio que só quem faz uma peregrinação consegue compreender.

É precisamente essa fotografia que acompanha esta partilha, porque representa aquilo que sinto sempre que termina mais um Caminho de Santiago ou um Caminho de Fátima.

Muito se fala sobre o início do Caminho de Santiago. Há fotografias da partida, mochilas ainda impecáveis, sorrisos de entusiasmo e a expectativa de quem parte para uma experiência que sabe que será transformadora.

Depois chega a fotografia da chegada. A emoção de entrar em Santiago de Compostela ou de chegar ao Santuário de Fátima. Os abraços. As lágrimas. O sentimento de missão cumprida.

E depois…

Depois instala-se o silêncio.

Apesar de já ter vivido muitas chegadas, confesso que nunca me habituei completamente àquilo a que chamo a nostalgia do pós-Caminho.

No meu caso, este sentimento é ainda mais intenso.

Talvez seja a descarga acumulada de muitos quilómetros. Das noites mal dormidas. Da responsabilidade de acompanhar peregrinos, resolver imprevistos, gerir alojamentos, transportes, logística e garantir que cada detalhe corre da melhor forma.

Enquanto estou no Caminho de Santiago, não há tempo para pensar no cansaço. Existe apenas uma missão: proporcionar a melhor experiência possível a quem decidiu confiar em mim para viver esta peregrinação.

Só quando regresso a casa é que o corpo e a mente permitem que tudo abrande.

E é nesse momento que surge o verdadeiro impacto do regresso do Caminho de Santiago.

Durante o Caminho, a vida simplifica-se. Caminhar. Comer. Descansar.

Tudo aquilo de que precisamos segue connosco às costas.

Vivemos apenas o momento presente.

O ritmo dos passos substitui o relógio. As conversas tornam-se mais profundas. O silêncio ganha significado. Os cheiros da natureza parecem mais intensos e aprendemos novamente a valorizar o essencial.

É talvez essa simplicidade que torna o Caminho de Santiago uma experiência tão transformadora.

Mas depois regressamos.

À secretária.

Ao telefone.

À agenda.

Às mesmas ruas.

À mesma rotina.

Tudo parece exatamente igual.

Mas nós já não somos os mesmos.

Porque o Caminho de Santiago muda sempre qualquer peregrino. Não importa quantas vezes o percorremos. Há sempre algo que levamos connosco quando regressamos.

E é precisamente aí que nasce aquela sensação difícil de explicar.

Não é apenas saudade.

Não é apenas tristeza.

É uma nostalgia muito particular.

Saudades do ritmo.

Da liberdade.

Das pessoas.

Dos amanheceres.

Da simplicidade.

Da melhor versão de nós próprios que encontramos durante a peregrinação.

Talvez seja por isso que, quando alguém pergunta:

“Então, como correu o Caminho de Santiago?”

Respondemos quase sempre:

“Correu bem.”

Mas sabemos que essa resposta nunca consegue explicar verdadeiramente aquilo que sentimos.

Porque há experiências que não cabem em palavras.

Só quem já viveu o Caminho de Santiago compreende a intensidade do regresso do Caminho, a nostalgia do pós-Caminho e a transformação que permanece muito depois da última etapa.

Costuma dizer-se que o verdadeiro Caminho de Santiago começa quando regressamos a casa.

É aí que percebemos tudo aquilo que a peregrinação nos ensinou.

É aí que descobrimos que o Caminho nunca termina verdadeiramente.

Continua dentro de nós, todos os dias.

Sobre o Autor

Luís Guilherme Negrita é fundador da Passa Montanhas, Guia Profissional de Caminhos de Santiago e especialista em trekking e turismo pedestre.

Há mais de quinze anos que percorre montanhas e caminhos históricos, tendo caminhado centenas de etapas em diferentes rotas jacobeias e acompanhado centenas de peregrinos na preparação e realização do seu Caminho.

É também o criador da Academia do Peregrino, um projeto dedicado à partilha de conhecimento, formação e preparação de quem deseja viver o Caminho de Santiago de forma segura, consciente e enriquecedora.

Cada conselho apresentado neste artigo resulta da experiência adquirida no terreno, de milhares de quilómetros percorridos e do contacto permanente com peregrinos de diferentes idades, objetivos e níveis de experiência.

Porque cada peregrino é único.

E cada Caminho merece uma preparação à altura.


Direitos de Autor

© Luís Guilherme Negrita – Passa Montanhas. Todos os direitos reservados.

Este artigo, bem como todas as fotografias, ilustrações e restantes elementos gráficos nele incluídos, constituem obras originais de Luís Guilherme Negrita, publicadas pela Passa Montanhas, encontrando-se protegidos pela legislação portuguesa e internacional em matéria de direitos de autor e propriedade intelectual.

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