
Dentro de algumas horas volto ao Caminho.
Sempre que chega este momento, recolho-me dentro de mim durante alguns minutos de silêncio.
É um ritual que nunca perdi.
Tal como um atleta que, antes de entrar em competição, fecha os olhos e reúne todas as suas forças, também eu procuro esse instante de recolhimento. Mas a minha preparação não é apenas física.
É uma conversa silenciosa comigo próprio.
Uma espécie de prece.
Um momento para reunir a energia, reencontrar o propósito e recordar a responsabilidade de caminhar ao lado de quem me confiou uma parte da sua história.
Porque aprendi que as maiores viagens começam muito antes do primeiro passo.
Há muitos anos fiz uma escolha.
Não foi a escolha de uma profissão.
Foi a escolha de uma forma de viver.
Volto sempre ao Caminho, porque este foi o caminho que escolhi.
Muitas pessoas perguntam-me se não se torna repetitivo percorrer tantas vezes as mesmas rotas.
Sorrio sempre.
Como explicar que nunca caminhei duas vezes no mesmo Caminho?
As montanhas continuam onde sempre estiveram.
As aldeias recebem os peregrinos da mesma forma.
As setas amarelas apontam sempre a mesma direção.
Mas o Caminho nunca é igual.
Porque o Caminho nunca foi a paisagem.
O Caminho são as pessoas.
Cada peregrino leva consigo uma vida inteira. Há histórias de perda, de amor, de doença, de fé, de culpa, de esperança e de recomeço. Há quem caminhe porque fez uma promessa. Há quem caminhe porque procura respostas. Há quem venha apenas experimentar e acabe por encontrar muito mais do que imaginava.
E, sem se aperceberem, acabam também por caminhar dentro de mim.
Ao longo destes anos percebi uma verdade que nunca imaginei quando dei os primeiros passos.
Enquanto acompanho alguém na descoberta do seu caminho, também continuo a descobrir o meu.
Cada história que escuto ensina-me uma nova forma de olhar para a vida. Muitas vezes, é através da história de quem caminho ao lado que compreendo melhor a minha própria história.
Há conversas que me transformam.
Há silêncios que me respondem.
Há lágrimas que nunca esquecerei.
Há sorrisos que ainda hoje me acompanham.
Cada peregrino deixa uma marca em mim.
Cada um acrescenta uma pequena pedra ao caminho que também continuo a construir.
Talvez seja por isso que continuo a voltar.
Não porque saiba tudo sobre o Caminho.
Mas precisamente porque ainda tenho muito para aprender.
Aprendo com quem tem oitenta anos e continua a acreditar nos sonhos.
Aprendo com quem perdeu quase tudo e, mesmo assim, encontra motivos para agradecer.
Aprendo com quem chega cheio de medo e descobre uma coragem que desconhecia.
No fundo, apercebo-me de que nunca acompanhei apenas peregrinos.
Hoje percebo que, tantas vezes, fui eu quem acabou por ser acompanhado por eles.
Há uma ideia que sempre me inquietou.
Diz-se muitas vezes que o guia vai à frente.
Nunca me revi nisso.
Com o tempo compreendi que ser guia é um exercício permanente de equilíbrio.
É estar perto o suficiente para oferecer segurança e confiança, mas longe o necessário para nunca retirar ao peregrino o protagonismo da sua própria jornada.
Porque, no fim, a jornada do herói nunca é a do guia.
É sempre a de quem teve a coragem de dar o primeiro passo.
Talvez seja por isso que continuo a regressar.
Não regresso para ensinar.
Regresso para continuar a aprender.
Não regresso porque conheço o Caminho.
Regresso porque o Caminho continua a conhecer-me melhor do que eu próprio.
E talvez seja essa a maior descoberta destes anos todos.
O Caminho deixou de ser um lugar para onde vou.
Tornou-se o lugar onde vivo.
Hoje já não sei se vivo no Caminho, ou se é o Caminho que vive em mim.

Sobre o Autor
Luís Guilherme Negrita é fundador da Passa Montanhas, Guia Profissional dos Caminhos de Santiago e dos Caminhos de Fátima, especialista em trekking, turismo pedestre e acompanhamento de peregrinos.
Há mais de quinze anos percorre montanhas, trilhos históricos e rotas de peregrinação, tendo caminhado centenas de etapas em diferentes Caminhos de Santiago e acompanhado centenas de peregrinos na preparação e realização da sua peregrinação.
É também o criador da Academia do Peregrino, um projeto dedicado à formação, preparação e partilha de conhecimento com todos aqueles que desejam viver o Caminho de Santiago e os Caminhos de Fátima de forma segura, consciente e enriquecedora.
Cada reflexão, cada artigo e cada conselho que partilha nascem da experiência vivida no terreno, de milhares de quilómetros percorridos e, sobretudo, das pessoas que teve o privilégio de acompanhar.
Porque acredita que o verdadeiro Caminho não é feito apenas de trilhos.
É feito de pessoas.
E cada peregrino deixa sempre uma parte de si em quem tem o privilégio de caminhar ao seu lado.
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